A nova peleja de Zé Ramalho com Zé do Caixão
Beto Brito - João Pessoa - Paraíba
direto


Esse campo é perigoso
Onde hoje vou bulir
São dois mistérios profundos
Pra entrar sem me ferir
Dois mitos numa peleja
É preciso que se veja
Deus me ajude pra sair

Falar desses dois sujeitos
Eu tenho que me benzer
Zé do caixão é trevoso
Zé Ramalho, é de doer
Peças de feitiçaria
Magia negra e porfia
O caldeirão vai ferver

Dizem que um deles dois
Mora numa sepultura
Sem água, fogo e vinho
A palmos de sete fundura
Tipo nenhum de comida
Levou na sua descida
Exceto uma rapadura

Feita de osso e tutano
Asa e pó de morcego
Pé e ferrão de lacraia
Rabo e tripa de burrêgo
Resto de raspa de unha
Lampião foi testemunha
Veja o tamãe do carrego

O outro veio de longe
Da profundeza abissal
Amuntado num cavalo
Diferente do normal
No mei da testa um chifre
Eu duvido quem decifre
Esse bicho sideral

Aprêtiado sem sombra
Só vindo doutro planeta
Tinh´um ôi arregalado
O outro cego e zambeta
Um raio laser na venta
Corria a mais de noventa
Êita cavalo porreta!

Escondia duas asas
No aperreio voava
Não tinha fome nem sede
Um oceano nadava
De frente, costa, de lado
Bicho sabido, encantado
Só Zé Ramalho montava

O dia marcado foi treze
Duma sexta-feira fria
Puseram trancas em portas
Nem com machado se abria
O povo todim s´escondeu
O sol de medo correu
Nem uma nuvem se via

Até cachorro tremia
Tudo que é bicho calou-se
Esvaziou a cidade
Um cururu afogou-se
Trovejou, relampiou
Um corisc´o céu riscou
Mas ligeirim apagou-se

Por cada ponta de rua
Chegaram eles de vez
Zé do Caixão de capuz
Feito de couro de rês
Zé Ramalho de veludo
Já chegou quebrando tudo
Na barulheira que fez

Zé do Caixão parecia
Fogo de larva corrente
Vermelho feito coivara
Na mão direita um tridente
Na outra, chicote em aço
Da ponta saía um pedaço
De trip´arrancada de gente

Corria sangue nos beiços
No canto dele um riacho
A capa cobria seu rosto
Repare bem o despacho
O sangue na boca coalhava
Um fio grudento ficava
Igual mel de cana no tacho

Falando em teologia
Em panteísmo e Pandora
Vem Zé Ramalho à galope
Exatamente na hora
Que a lua no céu s´esconde
Com pinta e jeito de conde
Lendário feito um caipora

De seu bisaco a viola
Ergueu-a feito troféu
Mais reluzente que a luz
De todas estrelas no céu
Fez um primeiro acorde
E com seu jeito de lorde
Curvando tirou o chapéu

Zé do Caixão preparado
Reverenciou-o também
Daquela hora em diante
Os padres digam amém
Peguem rosários e santos
Escondam-se pelos cantos
Que a briga feia já vem

Sentaram-se lado a lado
E começou a peleja
Um mote veio das sombras
Outro saiu da igreja
Da Inquisição, de Darc
De lobisomem, das Farc
Decapitação em bandeja

Escatologias e múmias
Reinados, Páres de França
De Virgulino e Centauro
Dom Orleans de Bragança
De Barrabás a Jesus
De fel, ferida e pus
De Jesse James e Pança

De lendas, gregos e gringos
Guerrilhas e de samurai
De Conselheiro a Hércules
Da Bíblia e até de haicai
De dentadura postiça
Da traição que atiça
O inocente que cai

Leandro Gomes, Camilo
Canção de fogo, Panelas
Um outro Zé, do Absurdo
Pornochanchad´e mazelas
De boi-de-reis e ciranda
De aleijado que anda
E muitas outras querelas

Porém ninguém escutava
O som do trovão eclodia
Relampiava além-mar
Um pe d´água escorria
Por causa de um carcará
Um cisne pois a grasnar
E um gato preto morria

A tempestade estancou
A lua saiu de aro perto
Vai demorar pra chover
Aquele lugar tão deserto
S´incheu de alma estranha
Zumbi com cara de aranha
E um cocunda encoberto

Ninguém precisa pagar
Nessa peleja druída
Porém tem uma cartola
Com penitências de vida
Um mote vem da platéia
Quem bobear na idéia
Deixa pro outro a pedida

O cantador que perder
Perde também o direito
De pedir um sacrifício
Por isso peça bem feito
O que errar é que paga
Na cartola tem a saga
É quinau de todo jeito

Um sujeitim de coragem
Da Serra do Rudiador
Pediu a Zé do Caixão
Que explicasse o amor
Ele sem nada entender
Começou estremecer
E quase que definhou

Zé Ramalho da cartola
Tirou a primeira prenda
Pediu pra ele citar
Da bíblia algo qu´entenda
Nad´ele soube narrar
Uma voz de algum lugar
Disse pra ele –aprenda!

Foi pedido a Zé Ramalho
Que cantasse em falsete
Ele tentou mas num deu
Desceram-lhe o cacete
Zé do Caixão exigiu
E pra ele assim pediu
-Fique sem o seu colete

Só de calças, sem camisa
Imagine essa visão
Uma magreza medonha
Caíram na gozação
Ô cabra feio da gôta
Coragem tem a garota
Que beija esse macarrão

ZR: Zé do Caixão me responda
Uma pergunta profunda
Como é que o amigo faz
Quando vai limpar a bunda
Me diga qual é a mão
Que você coça o cunhão
Me fale, não me confunda

ZC: Meu amigo Zé Ramalho
Ouça o que vou lhe dizer
De mão esquerda eu limpo
A bunda sem me mexer
Mas pra coçar o cunhão
Não uso nenhuma mão
Porque eu chamo você

ZR: Nasci num buraco negro
Cresci no Brejo do Cruz
No meu quintal as estrelas
Chapéu de couro´o capuz
A minha força é por dentro
Mais forte que um epicentro
Se alimentando de luz

ZC: A minha força é tamanha
Que nem diamante finda
Engole buraco negro
Se duvidar mais ainda
Carrego a lua nas costas
Preparem suas apostas
Minha vitória se brinda

ZR: Essa fama de almanaque
É só pra fazer enredo
Disseram-me outro dia
E vou contar o segredo
No meio da escuridão
Tu s´encontrou com o cão
Quase se caga de medo

Foi um medinho à toa
Inda dói na consciência
Esse fato é verdadeiro
Mas sou pastor da ciência
Conheço teologia
Mais que José e Maria
E não faço penitência

ZR: Tu só conhece as trevas
O pútreo filosofal
Eu decifrei os enigmas
Fiz o primeiro jornal
Dei melodia às estrofes
Botei pra fora os bofes
Com teu bafo matinal

ZC: Sendo pra fazer arenga
Eu vou botar pra feder
Pensei que nossa peleja
Não fosse nos ofender
Segure a sua bitola
Você comigo se atola
Quando bato é pra doer

ZR: O seu tridente é muleta
E sua capa é de frio
Eu sou treloso, invocado
Rebento barreira de rio
Nunca perdi um toré
Vou lhe dizer como é
Que se ganh´um desafio

ZC: Minha viola tem cordas
D´uma teia de aranha
Esse martelo qu´eu faço
Nem ivanildo arranha
E como sou invejado
Pode botar mal olhado
Que desse Zé tu num ganha

ZR:A minha voz é dilúvio
Que tira mágoas doídas
Sou mito e glorificado
Sete gatos, sete vidas
O meu avô é Raimundo
E nada tem neste mundo
Pior que dores fingidas

ZC:O meu olhar é graúdo
As unhas crivam no quengo
Do verme destrambelhado
Que apodrece molengo
Inerte feito lajedo
Nascido morto de medo
Com pés e mãos de capengo

ZR: O espaço e o oceano
São duas belas mulheres
Guardan´eternos segredos
Em forma de caracteres
Seus olhos coordenados
Profundamente domados
Conquista tu se puderes

ZC: O tálamo da verruga
Se tira com aveloz
A baraúna é buchuda
E a vida muito veloz
A terra foi o meu bucho
Nasci dum puxo-repuxo
Da sombra sou porta-voz

ZR: Eu aprendi dialetos
Fiz origames de seda
Disvirginei a Medusa
Já engoli labareda
Dum grão eu fiz um tijolo
Não esmoreço c´um tolo
Que faz despacho em vereda

ZC: Guia já fui de cigarro
Enganei até João Grilo
Ensinei a Jânio Quadros
Dizer "fi-lo porque qui-lo"
Malabares pra macaco
Ensinei juntando os caco
Dos dentes dum crocodilo

ZR: Minha matéria é do gelo
Caudaloso dos planetas
A minha seiva conserva
Por milênios meus gametas
Sou neto d´um jatobá
Bisneto d´um baôbá
Descendente dos cometas

ZC: Tu sois mais um nordestino
Crescestes chupando cana
Pedindo esmola nas feiras
Dormindo nas retiranas
Comendo frango caipira
Calçando chinelo d´imbira
Sonhando com o nirvana

ZR: Não nego meus ancestrais
Eu é que sou o nordeste
Nas escrituras rupestres
No caudaloso celeste
Na voz de lua Gonzaga
O por do sol que afaga
A cordilheira do agreste

ZC: A réstia entra na telha
A afla engloba o sujeito
Orgulho da criação
Parida, potra sem peito
Zé Ramalho eu assumo
Se tu me der desse fumo
Eu também canto direito

ZR: Minha fumaça é a cinza
Queimada de sabedoria
Do tipo de Malazarte
Quaderna e João Valentia
Euclides e Orlando Tejo
Nem Allan Poe eu invejo
Nem saberes d´Alquimia

ZC: Da terra serei porta-voz
Quando fizerem contato
Me dou bem com marcianos
Sendo valentes eu mato
Meu idioma é galático
O meu sorriso simpático
Fama de mal é boato

ZR: È perigoso amiúde
Deixar você tomar parte
Num episódio do tipo
Que seja vindo de marte
Os Ets podem lhe ver
Tudim com medo correr
Pro delegado dar parte

ZC: Meu amigo Zé Ramalho
Vou lhe falar de magia
Um fato que lhe assombra
Sou pai da filosofia
De Hamurabi pra cá
Banguelo eu vou lhe deixar
No final da cantoria

ZR: Vamos falar de quimeras
De sonhos adormecidos
Duende, anão e pantera
De nordestinos sabidos
De reis, rainhas e fadas
História de almas penadas
Velhos e bons tempos idos

ZC: Me criei na funerária
A minha história é de choro
Mas eu também sou da paz
Vou esquecer o agouro
Pensando na mocidade
Eu sinto muita saudade
Do meu primeiro namoro

ZR: Tô escutando direito
Ou é um delírio tremem?
Suando pelas orelhas
Só falta dizer um amém
Procure o meu Padim Ciço
Que ele tira o feitiço
E você vira do bem

ZC: Obrigado amigo Zé
Eu namorei com a terra
M´enterrei vivo com ela
Repare naquela serra
Daqui se vê um dragão
Por baixo dele um vulcão
É lá que o diabo me ferra

ZR: Então sigamos o rumo
Que indicar nossa venta
Misteriosa é a noite
Inteligente a tormenta
Chega lambend´o lagedo
Enfrenta ele sem medo
Juntando força arrebenta

ZC: Será que ainda dá tempo
De outra dose de sangue
Antes do fim da contenda?
Eu lhe peço não se zangue
Meu tira gosto é plasma
Pra melhorar minha asma
E ai de quem disso mangue

ZR: Tome um banho de cuia
Na beirada dum açude
Limpa dos pés à cabeça
Tudo que é tipo de grude
Uma cana de primeira
À sombra duma mangueira
Talvez depois você mude

ZC: A luz do dia está vindo
Na outra sexta, apareça
Quero fazer uma aposta
Aconteça o que aconteça
No seu cavalo do cão
Eu vou montar sem perdão
Até que ele esmoreça

ZR: É prego de ponta virada
Na sexta venho amuntado
No meu cavalo sem sombra
Se ele deixar ser domado
É seu, com sela e tudo
Se não, te dou um cascudo
De ver seu quengo rachado

A testemunha que tinha
Era um vigia da praça
Os dois sumiram depressa
Quebrou-se uma vidraça
Esperem outro cordel
Num assombroso vergel
De sangue, suor e trapaça

A nova peleja de Zé Ramalho com Zé do Caixão
anteriores início próximos