Peleja de Severino Noé com Zé Ramalho na terra de Avôhai
Afonso Costa - Campina Grande / Paraíba
direto


O Filósofo de Avôhai

Talvez seja a impiedade do sol causticante que penetrando as vistas, sem pedir licença, ofusque a alma à ponto de deixá-la tonta e desvairada, ou quem sabe, seja o contraste do cacto que floresce, delicado, por entre a agressividade dos espinhos, ou ainda, o paradoxo do sapinho "hibernando" sob a derme da terra esturricada pelos verões intermináveis, ou tudo isso junto resulte na alquimia que forja homens estranhos e envolventes. A bigorna que moldou Antonio Conselheiro continua produzindo "peças" disformes e curiosas.

Agora mesmo um espécime desses habita as Terras de Avôhai e atende pelo nome de Severino Noé, É poeta, é profeta. É asceta. Na sua vida que não tem data de começo nem previsão de fim tem sido andarilho contumaz, filósofo loquaz, observador voraz. Faz amigos por onde passa, estes, dão-lhe água, alimento e teto só para terem o prazer de ouvi-lo e a oportunidade de participarem de suas fantasias. Afinal, o que é fantasia e o que é realidade, qual é o formato da cerca que separa o concreto do abstrato? Severino Noé sabe. Sabe e diz.

Diz que veio ao mundo numa barra de sabão. É possível alguém vir ao mundo por esse meio? Certamente. Se o grande poeta e intelectual Augusto dos Anjos afirmou de pés juntos "ser uma sombra e ter vindo de outras eras" porque outro poeta não pode ter vindo camuflado numa barra de sabão. Pois bem, um dia desses o filósofo e poeta Severino Noé encontrou numa encruzilhada da vida o também filósofo e poeta Zé Ramalho e os dois, como era de se esperar, travaram farpas em versos e desse extraordinário embate resultou o presente cordel. Para testemunhar o entrevero poético lá estava de Câmara a postos ,o hipersensível fotógrafo Aurílio Santos para que não venham dizer que não foi assim. E olha que Aurílio é a maior autoridade em Severino Noé pois tem filmado e gravado "in loco" andanças e falares desse filósofo sertanejo.

A surreal PELEJA DE NOÉ COM ZÉ foi filmada e gravada por Aurílio, anotada e testemunhada pelo advogado e professor universitário Orione Dantas, transcrita pelo poeta Afonso Costa sendo que tudo foi oficialmente registrado por mim na presente nota

Campina Grande-PB, Fevereiro de 2005

Manoel Monteiro
Da Academia Brasileira de Literatura de Cordel


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